03/04/2021

Felicidade ou Morte (Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal)

Felicidade ou Morte

Um diálogo entre dois professores, filósofos e palestrantes, sobre um tema interessante, a Felicidades. Todos nós estamos a procura dela, mas não sabemos ao certo nem o seu significado. Nesse texto curto, ambos conversam sobre a Felicidades, a final, o que ela é? existe a felicidade? onde a encontramos? quais os caminhos ou decisões que nos deixam mais perto ou mais longe dela? 





1. O vazio da felicidade

"a felicidade, a meu ver, é muito mais conhecida pela sua ausência do que pela sua presença"

"a felicidades seja sempre algo que falta acaba tornando a discussão circunscrita ao mundo dos discursos, dos símbolos e das ideias, muito mais do que uma discussão propriamente afetiva."

"a felicidade é poucas vezes sentida, fica mais fácil fazer das condições para que ela aconteça um objeto de luta e uma questão ideológica."

"consequência de um embate que envolve interesses imensos .. luta pela definição do que quer dizer felicidade."

"ela é uma reflexão feita quando não se a tem. Essa noção pode ser estendida a todos os sentimentos."

"[familia é] fonte de todo o trabalho dos psicólogos, psicanalistas e terapeutas porque são a causa da infelicidade, dos traumas e problemas dos seres humanos. O campo familiar é o alvo de nove entre dez causas de conversas de pacientes com o terapeuta."

"felicidade sempre pressupõe uma essência antes da existência, um ideal antes de uma prática"

"algo que é projetado em vez de algo que é vivido ... a família que gostaríamos, o emprego e a renda que nos agradariam... e nesse futuro do pretérito ..."

"quanto mais complexa for a reflexão sobre a felicidade, mais improvável ela será"

"perceba o interessante: ou vivemos integrados a uma lógica e submetemos nossa vida às necessidades de uma realidade maior do que nós mesmos -e então, somos felizes (eudaimonia, como falavam os gregos)-, ou vivemos longe disso e nossa vida será horrível porque estará em desarmonia com a ordem cósmica"

"referência tranquilizadora para a vida boa"

"as sociedades animais, aquelas em que não há a ideia de abstração ou idealização, seriam sociedades perfeitamente integradas"

"não há escolha e, não havendo escolha, não existe infelicidade. Associamos a felicidade à possibilidade de muitas escolhas, e a realidade parece contrariar esse desejo: mais escolhas parecem ofuscar a felicidade"

"a Índia ... adequar uma sociedade de funções distintas, que são as castas"

"Toda chamada corrente pós-estruturalista lutou para dizer que não havia nenhuma ordem prévia. Não havia natureza, nem vocação, Deus, ordem, universo kantiano, universo ordenado, universo newtoniano; tudo seria uma construção do pensamento ... esses filósofos não foram mais felizes do que aqueles que tinham proposto uma ordem cósmica"

"se pensarmos do ponto de vista do materialismo histórico, ao estabelecer o consumo como guia de felicidade, é óbvio que isso serve ao elemento do universo produtivo. Afinal, quanto mais se produz, mais se tem."

"ensinam os budistas ... todos têm anseios, e por isso são infelizes"

"como no caso de Fausto, de Goethe, se estabelece no trabalho duro e metódico a chance da felicidade. Naturalmente, Goethe era alemão".

"nunca tivemos tantas condições de liberdade e, geralmente, em alguns casos, materiais para a felicidade. Nunca discutimos tanto por que as pessoas são infelizes, ou tão depressivas, ou por que tomam tantos antidepressivos, ou por que têm tanta dificuldade de, simplesmente, dormir".

2. Ser feliz ou ser livre?

"para que a vida seja boa, certa reconciliação com o mundo, com o real. Ou seja, estar bem com o mundo -até mesmo amá-lo- como ele é"

"amar o mundo como ele é sempre. Não somente tolerá-lo; amá-lo mesmo"

"o leitor concordará comigo que muitas coisas no mundo são difícilmente amáveis. Milhões de pessoas mortas, injustiças flagrantes no relacionamento das pessoas, o sofrimento das crianças ... Para amar o mundo como ele é, começa a ser mais complicado"

"A vida precisa de nossas escolhas. A liberdade não é propriamente um direito .. a liberdade é uma sina. Somos condenados às nossas escolhas, condenados a ser livre ... querendo ou não, teremos que dar uma solução para nossa existência"

"o aumento de alguma lucidez torna as escolhas progressivamente mais complexas, menos óbvias e, portanto, mais difíceis de serem operacionalizadas. Há, portanto, certo sofrimento no momento da escolha. E a dificuldade em escolher que aumenta quanto maior o número de variáveis de que disponibilizamos para escolher se traduz num sentimento desagradável ... e o que é mais incrível: feita a escolha, esse sentimento não desaparece"

"Por isso, o gato talvez seja o ser e nós o nada. Nós, que não somos nada, vamos vivendo sem ser, e assim, existindo livremente. A liberdade é esse traço da vida quando não há existencia que a condicione. E aí, é claro, sabemos o quanto é difícil fazer escolhas. Elas são um cobertor curto. Sempre."

"Quanto maior a lucidez, maior a certeza de que toda decisão implica caminhos que desatendem, que maculam, agridem, que podem ter valor negativo. Toda decisão. Se houvesse a boa e a má decisão por definição, certamente, acertaríamos mais. Tudo sería mais fácil."

"Calipso, que é a ilha da perfeição. Odisseu não aguenta ficar muito tempo nesse lugar. Lá nunca faz frio, nem calor, todos são jóvens e saudáveis, a comida é pronta e perfeita. Odisseu fica durante certo tempo na ilha e depois a abandona, dizendo a bela ninfa Calipso que é impossivel viver nessa perfeição ... a praia do nordeste é perfeita não porque aquele instante possa ser permanente, mas porque ele é fugaz."

"nenhum de nós pode impedir aquilo que é o destino universal e total, que é a morte .. não temos a liberdade mais radical, que é a liberdade da eternidade. E na nossa mitologia, quem é eterno, como a Sibila de Cumas ou os vampiros, é profundamente melancólico. Todo vampiro é depressivo"

"pais me perguntam: devo matricular meu filho numa escola construtivista ou mais condutista? Respondo: não se preocupe, tanto faz, vai dar errado do mesmo jeito. O que varia é o motivo pelo qual essa criança vai procurar o psicólogo".

"Antonio Machado dizia: caminhante não há caminho, faz-se caminho ao andar ... ... não havía caminho, só as minhas pegadas. Nada havia à frente. Só existe a história, não há profecia. História é tudo ... toda profecia é picareta."

"toda escolha implica perda, e essa é maior do que a opção ... ao optarmos por uma coisa, deixamos de lado milhares de outras."

"o fato de que hoje temos café de varios tipos -descafeinado, com chantilli, com espuma de leite, com canela- não nos torna mais felizes do que a minha avó, que trazia café num bule de ágata."

"não exatamente a felicidade, mas a alternância de momentos é que vai tornar a vida possível ... é a única que podemos ter."

3. A infelicidade do outro

"por que tantas pessoas se consideram não desejantes? ou aceitam as coisas sem um enfrentamento? sería essa uma forma sutil de felicidade, já que tanto o desejante quanto o não desejante resultarão, da mesma forma, na morte?"

"considero a morte uma das coisas mais importante para sermos felizes. Sem ela, nossa depressão seria insuportável"

"toda sociedade é, antes de tudo, um espaço de organizações de desejos, de organização de energias vitais. Nada está solto"

"a relativa incompreensão que temos ante as estratégias adotadas por aqueles que vivem vidas diferentes das nossas, talhadas e forjadas em espaços distintos dos nossos"

"Não gostou? Troca! você é o gestor da própria trajetória. Não patrocine para si mesmo uma vida triste ... não admita considerarem happy hour as sextas-feiras após as 18 horas, condenando o restante da semana à triste instrumentalização de seu trabalho em busca do enriquecimento de pessoas que você talvez nem venha a encontrar"

"de onde vem a aparente inércia ante situações claramente inadequadas de vida? ... sería bacana se quebrassem o nosso galho, nos dessem um descanso dessa árdua atividade de decidir o próprio caminho"

"a construção no decorrer da vida, de uma espécie de definição de si mesmo. Ou seja, nascemos sem essência ... circunscrever nossas alternativas de existência, limitá-las, eliminar o que escapa completamente ao nosso entendimento sobre nós mesmos."

"até aquilo que pensamos sobre nós possui sua origem na sociedade ... uma criança vai aprendendo ao longo de sua trajetória o que ela estará autorizada a dizer sobre si mesma. Tanto é assim que uma criança começa a se definir repetindo os atributos que lhe são conferidos por aqueles com quem ela se relaciona ... a sociedade não só nos abastece com a matéria-prima daquilo que podemos dizer sobre nós mesmos; ela também nos fiscaliza, nos vigia. A sociedade não nos deixa descarrilhar na hora de falar sobre nós mesmos ... nossa identidade é uma negociação permanente com o mundo que nos circunda ... vamos imaginar a figura de uma CEO. Ele deve se comportar como tal, e portanto, terá todo um discurso adequado sobre si. Não só um discurso, mas um gestual, uma indumentária, um veículo, uma maneira de ser ..."

"cada um de nós, precisando do endosso do mundo social, acaba também endossando as definições dos demais ... somos o que somos em negociação com a sociedade, que aceita, limita, pune ou premia em função dessa adequação. No fundo, continuamos a viver numa espécie de socieade de castas."

"como diz Marx: Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado"

"Chaves, que no seriado de televisão, é o único personagem feliz, porque mora num barril e não tem nenhum desejo que não o imediato da satisfação do sanduíche de presunto"

"estabelecemos o hospício com um único objetivo: para que saibamos que não somos loucos porque estamos fora dele ... isso talvez explique a pulsão de morte e a sedução que temos pela tragédia alheia, pelo acidente de trânsito na faixa vizinha ou que acometa o câncer nos outros, porque isso significa que não foi a nós"

"nossa felicidade ganha um outro contorno difícil: ela depende da infelicidade "

4. Felicidade e Amor

"o mundo nos afeta, e ele está sempre ali; vivemos em relação. Se assim vivemos, é porque afetamos o mundo ininterruptamente e vice-versa"

"essa é a história. Pode não dar certo, mas continuamos lutando".

"o mundo é infinitamente competente para nos entristecer. Ou somos infinitamente desprovidos de competência para nos alegrar sempre. E os encontros como o mundo são muito provavelmente apequenadores de nossa potência."

"assumindo a oscilação dos mesmos nessa senoide em que surfamos desde o nascimento, talvez pudéssemos, com os pés no chão, entender que a felicidade não deve ser uma linha enérgica paralela ao chão de estabilidade absoluta, porque nesse caso teríamos morrido, nem tampouco um crescimento ininterrupto de potência, que nos levaria a explodir"

"ninguém pode ver sentido em vender milhões ou bilhões de celulares ... ninguém pode ver sentido em lucros estratosféricos .. ninguém pode ver sentido na vitória de uns sobre outros distantes, detentores do capital ... quando a pessoa entende que a alegria que aquilo que ela vende proporciona a quem compra, posso acreditar que a indolência e a falta de sentido dão lugar a uma grande motivação. Porque o amor também existe."

"esse princípio de que é no outro que reside a realização de alguém é básicamente cristão ... de que é dando que se recebe ... o outro constitui o espaço da minha realização ... se fôssemos práticos não teríamos filhos."

"penso que a esperança de imortalidade, que reside nas pessoas que amamos e naquilo que constitui uma história, pode ser considerada uma perspectiva ingênua ... alguém de uma frieza analítica quase assustadora, sentimos que ali existe verdade, mas que, difícilmente foi uma pessoa profundamente feliz."

"a vida é um pouco absurda e inútil"

5. A felicidade aqui e agora

"vê no obstáculo a grande questão para a redenção da graça ... do calvário vem a ressureição, do martírio vem a palma da vitória .. o gosto do esforço"

"que a dor seja o início de uma resolução, de que a crise seja uma oportunidade e de que o fracasso seja uma ocasião de repensar, posto que é desses pequenos traumas e impossibilidades que produzimos respostas interessantes".

"faço um convite à vida. Um convite à realidade, às coisas como elas são ... o aqui e agora é uma boa reflexão, para que paremos de aumentar a dor em relação ao futuro ou o amargo em relação ao passado ... no fim, doutores estão ao lado de analfabetos, tateando no escuro, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Seja feliz! ou morra tentanto."


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