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| Eduardo Giannetti |
Gosto muito de filósofos científicos, que se perguntam sobre questões científicas e as misturam a questões existenciais: Carl Sagan é um deles. Aprecio bastante a leitura de Sagan, mas achei um brasileiro que escreve tão bem quando Sagan, e com reflexões bem profundas.. nesse caso, Giannetti é economista, uma ciência pela qual sinto especial atração.
Depois de muitos anos de ter o Billions and Billions (de Carl Sagan) como livro predileto, acho que este passou ao ser o meu predileto. Obrigado Eduardo. Ele chegou no momento exato em que tudo estava perdendo o sentido.. não que o tenha achado no livro, mas pelo menos senti que não estava só, e que existem muitas formas de seguir o caminho enquanto continuamos a achar as novas perguntas que nos mantêm caminhando.
Deixo as minhas anotações!
Prefácio
três ídolos da modernidade - a ciência, a tecnologia e o crescimento econômico - e os impasses oriundos dos seus cultos.
aprendi uma grande lição de esperança: a natureza e as sociedades humanas são portadoras de energias regeneradoras das quais mal desconfiamos.
Primeira parte
1. A tríplice ilusão
por três ilusões poderosas: a de que o pensamento científico permitiria gradualmente banir o mistério do mundo e assim elucidar a condição humana e o sentido da vida; a de que o projeto de explorar e submeter a natureza ao controle da tecnologia poderia prosseguir indefinidamente sem atiçar o seu contrário ... e a de que o avanço do proceso civilizatório promoveria o aprimoramento ético e intelectual da humanidade, tornando nossas vidas mais felizes, plenas e dignas de serem vividas.
quanto mais subimos na encosta do que a ciência nos faculta a conhecer, a superfície das coisas, mais descemos na gruta do que mais importaria saber - o porquê e o para quê de tudo. Que sabe a aranha da Via Láctea ou o tamanduá do cogito cartesiano? E, no entanto, vivem - como nós.
4. Quem não gosta de samba
O que mais violentamente repudiamos está em nós mesmos.
5. Nada em excesso
A inscrição no templo de Apolo em Delfos, centro religioso e geográfico do mundo grego, abriga uma peculiar instabilidade lógica. "nada em excesso"
só aqueeles que ousam e se arriscam a ir longe demais são capazes de chegar a saber quão longe se pode e, sobretudo, se deve ir.
6. Aberrações invisíveis
Ainda nas gerações de nossos avós, bisavós e tataravós, coisas que hoje julgamos eticamente aberrantes foram praticadas de modo corriqueiro, ao abrigo da lei, nas mais avançadas nações do mundo ocidental: a escravidão nas relações de trabalho; a punição corporal de alunos nas escolas; o duelo nas questões de honra; a interdição do voto femenino; a prisão ou castração química dos homossexuais; a segregação racial; a cauterização do clítoris; a criminalização do consumo de álcool e do sexo oral. O que saltará aos olhos da geração dos nossos netos, bisnetos e tataranetos como singularmente aberrante em nossas práticas e costumes?
- com certeza a nossa manera de tratar os animais e natureza.. e daqui a mais tempo, acho que o carro.
10. O inexpugnável mistério
pelo físico nuclear dinamarquês Niels Bohr segundo a qual "a tarefa da ciência é reduzir todos os mistérios a trivialidades". Terminada a tarefa da ciência, restará ainda um derradeiro enigma diante do qual ela não tem, nem poderá vir a ter, o que dizer: o mistério da trivialidade de tudo. O mistério da trivialidade da trivialidade do mistério de tudo.
11. A fome de sentido
o distingue de todas as outras espécies naturais: a peculiar aptidão ... de se questionar acerca do seu próprio destino como pessoa, coletividade e gênero. De onde viemos, por que vivemos, quem somos, o que vem depois? O desejo de conhecer a verdade sobre o significadoe o fundamento último da nossa existência, de um lado, e a necessidade de apaziguar essa inquietação e saciar a fome de sentido, de outro, alimentaram as incontáveis tentativas de formular narrativas e cosmologias que atendam a essas demandas e permitam, de tempos em tempos, reafirmar a crença na vida.
12. Natura codex est Dei
os criadores da ciência moderna contribuíram em forma decisiva para tornar Deus supérfluo no universo. Ao buscar desvendar a sabedoria e a bondade divinas do mundo natural ... eles inadvertidamente baniram o sobrenatural da natureza.
13. A família dos porquês
Mas, se tudo começa e termina em bioquímica, então por que - e para que - tanto sofrimento?
14. Após a morte
A esperança de vida ao nascer no mundo aumentou mais nos últimos quarenta anos do que nos 4 mil anos precedentes. O êxito da ciência na tarefa de expandir a duração das nossas vidas é um dos seus mais gloriosos feitos. - Mas o que tem ela a dizer diante do mistério da vida autoconsciente que cessa? Nada além do que propunha Lucrécio, o grande sistematizador latino do atomismo grego no século I a.C.: "Enquanto exito, a morte não é; quando estiver morto, nada serei; logo, a morte não existirá para mim".
- O misterio da morte, do nada, do vazio.
15. Receita infalível para o niilismo
um mundo, em suma, feito de átomos em movimento, genes egoístas e software neural, em que o animal humano figura como um subproduto gratuito, ínfimo e dispensável de um cego processo evolutivo, espremido entre a eternidade e a imensidão do cosmos. Steven Weinberg, Nobel de Física em 1979 - "Quanto mais o universo parece compreensível, mais ele também parece destituído de propósito" ... a ciência que prometia banir o mistério do mundo o deixa cada dia mais insondável.
17. A chave do tamanho
Frank Ramsey: "Discordo de alguns amigos que atribuem grande importância ao tamanho físico [do universo]. Não me sinto absolutamente humilde diante da vastidão do espaço. As estrelas podem ser grandes, mas não pensam nem amam - qualidades que impressionam bem mais que o tamanho. Não acho vantajoso pesar quase cento e vinte quilos". - Com o tempo não é diferente. E se vivêssemos, cada um de nós, não apenas um punhado de décadas, mas centenas de milhares ou milhões de anos? O valor da vida e o enigma da existência renderiam, por conta disso, os seus segredos? E se nos fosse concedida a imortalidade, isso teria o dom de aplacar de uma vez por todas o nosso desamparo cósmico e inquietação? Não creio. Mas o enfado, para muitos, seria difícil de suportar.
18. A tábua de Avicena
Se é verdade que a percepção não é o fato - a tábua esteve sempre onde está -, isso em nada diminui a importância - e eventual primazía - do fato da percepção.
20. O futuro de uma desilusão
Uma coisa é dizer que o animal humano partilha dos mesmos objetivos básicos -sobreviver e reproduzir- que todas as demais formas de vida; outra, muito distinta, é afirmar que "nenhuma espécie, inclusive a nossa, possui um propósito que vá alem dos imperativos criados por sua história genética" e que, portanto, a espécie humana "carece de qualquer objetivo externo à sua própria natureza biológica".
21. A crise de sentido
o próprio avanço da ciência se encarregou de minar de forma implacável, como um ácido corrosivo que a nada poupa, os credos religiosos e as crenças metafísicas de toda ordem que no passado permitiam a seu modo, se não aplacar de fato, ao menos distrair e enganar a fome de sentido; a consequência foi a erosão da confiança na capacidade humana de encontrar respostas que sobrevivam ao crivo de um exame crítico mais exigente e atendam a um padrão de integridade e honestidade intelectuais adequado ... A percepção do déficit de sentido e a sensação de vazio, desamparo e futilidade associadas à vitória da perspectiva científica - a pura positividade sem mistério do mundo - tendem a fomentar duas modalidades de reação regressiva que se tornaram traços definidores do nosso tempo: a reversão em massa a formas infantilizadas e caricatas de religiosidade, não raro afeitas ao fanatismo fundamentalista, e o recurso ao consumismo cego e desenfreado como fuga ou válvula de escape diante da perda de qualquer senso de trasnferência e propósito na vida.
22. Anatomia do impasse
A impossibilidade intelectual de crer não suprime a necessidade emotivo-existencial da crença.
23. A maçã da consciência de si
O ônus da vida consciente de si desperta no animal humano a nostalgia do simples existir ... A intenção de se livrar da autoconsciência visando a completa imersão no fluxo espontâneo e irrefletido da vida pressupõe uma aguda consciência de si por parte de quem a alimenta. Ela é como o fruto tardio sonhando em retornar à semente da qual veio ao galho ... A consciência é irreparável; dela, como do tempo, ninguém torna atrás ou se desfaz. Desmorder a maçã não existe como opção.
25. Libido sciendi
A curiosidade está para o conhecimento como a libido está para o sexo.
27. Relisiogidade sem religião
Existe mais mistério no ser de uma simples flor ou de um aleatório grão de areia do que em todas as religiões do mundo.
28. A equação de Hume
Como fica o Criador do universo? Se Ele deseja prevenir o mal, mas não é capaz de fazê-lo, então é impotente. Se é capaz, mas não deseja, então é maligno. Se deseja e também é capaz ... é distraído. Que criador, afinal, é este?
29. Insolubilia
É difícil encontrar o que se busca quando não se sabe ao certo o que se procura. No que poderia consistir uma solução para o enigma da existência que fizesse sentido em termos humanos? ... E quando se trata, contudo, da totalidade da vida ou do ser?
- 42!
Somos um experimento científico abandonado pelos deuses nos confins do "multiverso"; ou o sonho que alguém de outro mundo está sonhando; ou uma pantomima farsesca para a gratificação de um espíritu maligno; ou o drama hegeliano da autocriação do Espíritu em sua ascensão dialética rumo ao Absoluto; ou a via crucis probatória da salvação ou danação eterna das almas na eternidade.
33. Uma página de Emerson
"Não são homens, mas fomes, sedes, febres e apetites ambulantes. Como tais pessoas conseguem seguir vivendo - completamente desprovidas de objetivos? ... Nenhuma fé no universo intelectual e moral. Fé, isto sim, na química, ca carne e no vinho, na riqueza, na maquinaria, na máquina a vapor; fé em baterias galvanizadas, turbinas rotativas, máquinas de costura; fé na opinião pública, mas não em causas divinas." - e imaginar que estas linhas forma escritas em 1860.
Segunda parte
34. Assimetrias
A astúcia calculista é diabólica; a espontaneidade, divina. A preguiça é ladeira abaixo; a ginástica, ladeira acima. A derrota educa; o poder corrompe. Acordar cedo é um ato de vontade; adormecer é se deixar levar. Na tentação caímos; ao dever nos soerguemos. O pecado comete-se; a obrigação cumpre-se.
35. Ciência e mercado
A ciência jamais aplacará a nossa fome de sentido, o mercado nada nos diz sobre a ética - como usar a nossa liberdadee o que fazer de nossas vidas ... A regra de ourodo mercado estabelece que a recompensa material dos seus participantes corresponderá ao valor monetário que os demais estiverem voluntariamente dispostos a atribuir ao resultado de suas atividades ... mas o mercado não decide, em nome dos que nele atuam, os resultados finais da interação; isso dependerá sobretudo dos valores e das escolhas das pessoas. ... o mercado tem méritos e defeitos, mas ele não tem o dom de transformar os seres humanos em anjos ou libertinos ... o que ele faz é registrar, processar e refletir o que as pessoas são. Se a mensagem ofende, a culpa não é do mensageiro.
37. Roleta russa com o planeta
Gentileza gera gentileza; violência gera violência. Com a natureza não é diferente.
- Já dizía a minha mãe.
38. Air-conditioned nightmare
A tecnologia é a resposta, mas qual é a questão? ... a proporção de domicílios americanos dotados de condicionadores de ar passou de 20% em 1960 para 85% hoje em dia ... a previsão é que a Índia multiplique por dez o número de aparelhos entre 2005 e 2020.
39. Ardil de desrazão
Até que ponto a somatória de ínfimas partículas de culpa se acumula numa gigantesca dívida moral coletiva?
40. Idolatría do PIB
O culto do PIB como métrica de sucesso das nações tornou-se uma espécie de religião do nosso tempo ... o PIB, em suma, mede o valor monetário dos bens e serviços que transitam pelo sistema de preços - e nada mais.
41. Progresso
No passado, a ignorância e a penúria; agora, o absurdo e a abundância nos destroem.
42. Os dois caminhos da felicidade
"Nascer é uma desgraça, viver é doloroso, morrer é uma dificuldade", sentencia São Bernardo ... todo sofrimento humano resulta de uma incongruência entre a nossa vontade e desejos, de uma lado, e o estado do mundo e o curso dos acontecimentos que nos afetam, de outro ... o primeiro é interno à própria pessoa: adaptar-se e moldar a nossa vontade e desejos às coisas tais como são; o outro é agir sobre o mundo: mudar a realidade e intervir no curso das coisas de modo a que se adéquem aos nossos desejos ... na diferença entre as duas estratégias polares é possível, grosso modo, discernir o fundamental contraste entre as culturas tradicionais do Oriente e a moderna civilização ocidental ... felicidade da quietude ... e felicidade da conquista.
Na memorável fórmula de Hobbes, "o progresso contínuo do desejo de um objeto para outro, a obtenção do primeiro sendo apenas o caminho para o seguinte [...] o desejo perpétuo e sem trégua de poder seguido de poder, que cessa apenas com a morte".
43. Império reverso
Alexandre Magno resolveu conferir de perto. Foi até ele e propôs: "Sou o homem mais poderoso do mundo, peça-me o que desejar e lhe atenderei". Diógenes agradeceu a gentileza e não titubeou: "O senhor teria a delicadeza de afastar-se um pouco? Sua sombra está bloqueando o meu banho de sol". O filósofo e o imperador são casos extremos, mas ambos ilustram a tese socrática de que, entre os mortais, o mais próximo dos deuses em felicidade é aquele que de menor número de coisas carece ... "Querei só o que podeis", pondera o padre Antônio Vieira, "e sereis omnipotentes".
44. O berço de uma utopia
Giordano Bruno: "Os deuses deram aos homens a inteligência e as mãos, e os fizeram à sua imagem, dotando-os de uma aptidão superior à dos outros animais; essa aptidão consiste não só no poder de trabalhar de acordo com sua inteligência outras naturezas, outros cursos, outras ordens, com aquela liberdade sem a qual sua semelhança com a divinidade não existiria, a fim de que possa afinal fazer-se deus da Terra" ... o que hoje somos, ontem era apenas sonhado.
46. Falácia da indução
O granjeiro que por meses a fio veio pontualmente dar de comer à galinha, um belo dia torceu-lhe o pescoço.
47. Em defesa de profetas
Francis Bacon: "nenhum grau de conforto corporal que se pudesse alcançar pelo engenho e trabalho de uma centena de gerações traria felicidade a um homem cuja mente estivesse tiranizada pelo apetite silencioso, a inveja, o ódio ou o medo" ... se é verdade que "as ideias governam o mundo", cabe então perguntar: quem governa as ideias?
48. Pingue-pongue
Em 1931 um jornalista teria perguntado a Mahatma Gandhi que desembarcava na Inglaterra: "O que o senhor acha da civilização ocidental?" - "Acho que seria uma boa ideia".
49. O ético e o prazeroso
Qual é a natureza da relação entre o que é o certo, do ponto de vista ético, e o que é prazeroso do ponto de vista pessoal? - entre o bem e o bom? É o bem porque é bom - diz o hedonista. É bom porque é o bem - rebate o idealista. Viver no bem-bom - gaba o cínico. Vencer o jogo do bom é o maior bem - retruca o asceta. Bem não há e o bom não paga a pena - lastima o niilista. O bem é soberano, o bom seu súdito - celebra o entusiasta. O bem é a vontade divina e o bom a graça alcançada - prega o devoto. O bem é inescrutável e o bom ilude - arremata o cético.
50. A última palavra
A combinação de uma miríade de ações e escolhas individuais prima facie inofensivas pode gerar resultados agregados que se abatem sobre todos com a violência de uma fatalidade, como no exemplo da mudança climática em curso.
... to be continued!
