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No último capítulo não resisti e fui às lágrimas. Somos só humanos.
Introdução
Na faculdade, descobri que tratar de doentes graves era o que mais me interessava na medicina. Por essa razão, passei os últimos trinta anos envolvido com pessoas portadoras de câncer ou de AIDS, em convívio que moldou minha forma de pensar e de entender a existência humana.
Primeiros Passos
Chegávamos às sete da manhã e saímos às oito ou nove da noite, depois de passar o plantão para a equipe noturna. Ao atravessar a porta do pronto-socorro, tomávamos consciência do mundo exterior, das ruas movimentadas e das pessoas alheias à sorte daqueles de quem havíamos cuidado o dia inteiro. Deixava os plantões arrasado, revoltado com a ordem econômica responsável por tamanha desigualdade.
O filho da costureira
Minutos antes de seu Vitorino falecer, fui chamado para vê-lo. No quarto, a esposa acariciava-lhe os cabelos; do outro lado, de frente para o pai, as filhas, em pé, abraçadas pelos maridos, guardavam pequena distância do leito. O pôr-do-sol deixava o quarto alaranjado. Inconsciente, seu Vitorino respirava com grande dificuldade ... cinco minutos depois, uma pausa demorada antecedeu um último estertor, que produziu a contração dos músculos do pescoço e provocou a emissão de um som rouco, quase inaudível, de curtíssima duração. Nada mais. Ninguém chorou. Ficamos na posição em que nos encontrávamos, estáticos, por um tempo longo. Nunca havia imaginado que a morte pudesse trazer tamanha paz.
Segunda sem lei
Um corpo sem vida tem o dom de atrair a curiosidade humana ... as crianças manifestam essa atração com espontaneidade, os adultos nem tanto; procuramos resistir a ela por considerá-la mórbida e por medo de que a figura da pessoa falecida fique impregnada em nosso imaginário e nos visite em ocasiões inoportunas.
Palavras
Especialmente difícil é desvendar as expectativas que se estabelecem entre os casais quando um dos cônjuges percebe que o outro pode morrer em pouco tempo. Nessas oportunidades, geralmente afloram dois tipos contraditórios de sentimentos: de um lado, a tristeza antecipada da perda e a saudade das boas lembranças; de outro, insegurança, medo do futuro solitário e mágoas pelas frustrações, ofensas e humilhações sofridas.
De tanto ser enganado pelas palavras, aprendi a dar mais importância às expressões e aos gestos dos doentes e das pessoas que os cercam.
Em matéria de dinheiro, aliás, assisti às mais impiedosas mesquinharias entre os casais, especialmente quando a pessoa doente é a mulher. Não me refiro aos que mal ganham para as necessidades básicas da família - estes, curiosamente, costumam dar mais demostrações de altruísmo; falo de gente que importa automóveis, frequenta os melhores hotéis, compra jóias de milhares de dólares.
Filhos desejarem a morte dos pais por razões egoísticas, maridos a esposas, e vice-versa, eu vi muitas vezes, mas mãe deixar de lutar pela última esperança de prolongar a vida do filho é raríssimo!
Ao examinar o rapaz, notei um nódulo do tamanho de uma azeitona no testículo esquerdo - que nem médico nenhum haviam palpado - uma massa abdominal grande como uma bola de futebol de salão e numerosos nódulos na superfície do fígado. Os exames confirmaram tratar-se de um câncer de testículo com mais de cinqüenta metástases pulmonares, disseminação hepática, massas tumorais confluentes no abdômen e na fossa supraclavicular. Era o caso mais avançado desse tipo de câncer que eu já tinha visto ... sete meses depois Giovanni desmaiou na cozinha da casa da namorada ... uma tomografia mostrou um tumor que comprimia a parte central do cérebro, cercado por uma área grande de edema. O quadro era tão dramático que o neurocirurgião a quem mostramos as imagens custou a acreditar que o paciente ainda estivesse vivo ... naquele caso, por sorte, não houve intercorrência alguma; o paciente saiu do centro cirúrgico para o quarto e, na manhã seguinte, tomou café na mesinha ao lado da cama, lúcido e conversador ... a lesão cerebral desapareceu definitivamente, deixando como único resquício uma pequena calcificação. Um ano mais tarde, Giovanni e a noiva apareceram com o convite do casamento. Casaram e tiveram um filho, que levaram ao consultório para me apresentar quando completou um mês de idade. Sentaram à minha frente com a criança no colo ... fiquei tão feliz ao ver o bebê que comecei a rir. Parecia que ele de alguma forma me pertencia. Um neto, talvez. Giovanni e a mulher olhavam para mim e para o filho, e também riam.
O sofrimento alheio
Uma das lições que aprendi com a maturidade profissional foi não me deixar paralisar pela angústia que o contato com a dor do outro provoca. Para ajudar quem está amedrontado pela possibilidade de perder algo tão valioso como a própria vida, o pior interlocutor que pode existir é alguém condoído a ponto de entrar em pânico.
Seu Israel
Aprendemos muito sobre a função do médico moderno, a quem, ao contrário do que ocorria com os antigos, cabe não o papel de dar ordens ou impor condutas prescritas em letra ilegível, mas apresentar à pessoa doente o leque de alternativas disponíveis e as prováveis consequências de cada escolha, para ajudá-la a selecionar a que melhor atenda a seus interesses.
O velho mestre
Com o tempo a depressão tomou conta de seu espírito; tornou-se circunspecto, indiferente aos estímulos, pouco disposto a falar sobre seus problemas de saúde.
- Não sinto forças nem desejo continuar. Deixei de me alimentar voluntariamente, para ver se tudo acaba mais depressa. Vivo dependente ... inválido, incapaz ... resisti o quanto pude, já cumpri minha parte, não quero mais viver humilhado à espera de tudo acabar. Não façam mais nada para adiar o inevitável ... no decorrer dessa conversa vou chorar outras vezes, mas não se impressione, é um choro provocado pelas emoções que tomam conta da alma das pessoas muito doentes, queiram elas ou não ...
- O quê você espera que eu faça?
- O que existe de mais difícil em nossa profissão: reconhecer o momento em que a morte é iminente e ajudar o paciente a atravessá-lo sem sofrer, conduzi-lo com sabedoria e arte para permitir que a vida se apague em silêncio, como uma vela ... lamento fazê-lo passar por essa dificuldade. Fiz o possível para poupá-lo. Há quinze dias pedi ao Luiz, meu melhor amigo, seis caixas de Gardenal para resolver o problema por minha conta. Ele prometeu que traria, mas não voltou mais. Deve ter perdido a coragem.
Três dias depois, no começo da tarde, sua respiração se extinguiu da forma que ele desejava, como a chama de uma vela.
Solidão
A complexidade dos pensamentos e reações de quem se defronta com a possibilidade de morrer é de tal ordem, que em trinta anos encontrei mais dúvidas do que respostas a me orientar na condução desses casos.
Regime higieno-dietético
Regime higieno-dietético, para identificar os casos em que nada mais há a fazer ... os médicos receitavam analgésicos de rotina e consideravam encerrada sua partipação no caso. Esse procedimento não era caso isolado; fazia parte de uma política pragmática das instituições que atendiam doentes portadores de câncer no mundo inteiro: diante de recursos materiais limitados, sentiam-se forçadas a drená-los para o atendimento de pacientes ainda passíveis de cura que aguardavam vaga nas filas de internação, antes que a espera os tornasse inoperáveis.
Ele concordou inteiramente, mas lembrou que no dia seguinte o chefe do serviço reclamaria: "De hoje em diante, toda vez que esse doente passar mal, a família vai despencar em nossa porta. Já imaginou se todos os RHDs fizerem o mesmo? O hospital vira depósito de gente desenganada, não sobra leito para operar mais ninguém".
"- Vá com Deus, doutor. Seja abençoada a sua profissão, que Deus criou para aliviar o sofrimento da gente." ... para que serve a medicina? Se me perguntassem provavelmente teria respondido ingenuamente que ela existia para curar pessoas, ignorando diabetes, hipertensão, reumatismo, os derrames cerebrais e tantas enfermidades crônicas. Pior, sem levar em conta sequer os doentes incuráveis que me procuravam. Fiquei com raiva de mim mesmo e de todos os médicos onipotentes, que se atribuíam o papel exclusivo de salvadores de vidas, pretensão equivocada da razão de existirmos como profissionais ... a finalidade primordial de nossa profissão é aliviar o sofrimento humano.
Doentes nas fases mais avançadas, acompanhados com a devida atenção, podem receber tratamentos necessários para assegurar-lhes condições de vida mais dignas: hidratação, transfusões de sangue, quimioterapia, modificações de esquemas analgésicos e demais medidas de suporte. Além do mais, mantê-los em casa entre os familiares é conduta muito mais humanado que fazê-los passar internados os últimos dias de suas vidas.
Solidariedade
Como regra, as mulheres são muito mais solidárias com os homens doentes do que eles com elas. No consultório, em cada dez mulheres que comparecem regularmente para receber quimioterapia, no máximo uma vez acompanhada pelo marido ou por um filho; nove chegam sozinhas ou com outra mulher ao lado ... a principal justificativa masculina são os compromissos profissionais inadiáveis ... os que não dispõem desse álibi, lançam mão de estratégias variadas: é lógico que prefeririam estar junto para ajudar, apenas não o fazem porque são impressionáveis, impacientes, sensíveis à dor da pessoa querida a ponto de caírem em depressão profunda, ou simplesmente desajeitados, inúteis para prestar o menor auxilio.
A vertigem
Seria lógico esperar, então, que o aparecimento de uma doença grave, eventualmente letal, desestruturasse a personalidade, levasse ao desespero, destruísse a esperança, inviabilizasse qualquer alegria futura. Mas não é isso que costuma acontecer: vencida a revolta do primeiro choque e as aflições da fase inicial, a maioria dos doentes com câncer ou AIDS que acompanhei conta haver conseguido reagir e descoberto prazeres insuspeitados na rotina diária, laços afetivos que de outra forma não seriam identificados ou renovados, serenidade para enfrentar os contratempos, sabedoria para aceitar o que não pode ser mudado.
Era tão ansioso que chegava puxar a descarga antes de terminar de urinar. A doença me ensinou a viver o presente.
- Apertar fechar porta no elevador e enquanto a porta está fechando apertar o numero do andar.
Muitos dos meus pacientes encontravam novos significados para a existência ao senti-la esvair-se, a ponto de adquirirem mais sabedoria e viverem mais felizes que antes, mas essa descoberta transformou minha vida pessoal: será que com esforço não consigo aprender a pensar e agir como eles enquanto tenho saúde?
Meu irmão
Todo médico deveria passar pelo que estou passando. Experimentar na carne a fragilidade que a doença traz, as agruras das dores persistentes, náuseas e mal-estares, incertezas. Sentir nostalgia da felicidade despreocupada de outras épocas, amargura ao imaginar o vazio que nossa ausência poderá deixar nas pessoas queridas, o desejo insensato de acordar desse pesadelo.
Em tais ocasiões, quando me sentia deprimido, tomava uma dose de cachaça e entrava em sintonia instantânea com o ambiente.

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